5. INTERNACIONAL 12.6.13

1. O ARRASTO DA ESPIONAGEM
2. A FILIAL DO TERROR
3. O DESPERTAR TURCO

1. O ARRASTO DA ESPIONAGEM
Dois escndalos de bisbilhotice deixam os defensores das liberdades civis estarrecidos e engolfam Obama na maior crise poltica do seu mandato: que fim levou o prometido "governo da transparncia"?
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Em menos de 24 horas, dois escndalos de bisbilhotice oficial engolfaram o governo do presidente Barack Obama na pior crise de confiana desde que chegou  Casa Branca. Num caso, seu governo foi pilhado monitorando as ligaes telefnicas de milhes de americanos clientes da Verizon, uma das maiores empresas de telecomunicaes dos Estados Unidos. Monitorando todas as ligaes, todos os dias, sem exceo. Capturando os nmeros dos telefones de origem e de destino, a hora, o local e a durao das chamadas. Os espies s no tm acesso ao contedo das conversas. Em outro caso, que veio a pblico no dia seguinte, seu governo foi flagrado bisbilhotando os servidores centrais das maiores companhias de internet do pas: Google, Facebook, Apple, Microsoft, Yahoo!, AOL, YouTube, Paltalk e Skype. Bisbilhotando de tudo: e-mails, vdeos, fotos, arquivos, transferncias, conversas on-line de milhes de usurios. O ex-vice-presidente Al Gore, dono de inquestionvel pedigree democrata, postou um tute em que qualifica a espionagem de Obama, seu amigo e aliado, com apenas duas palavras: "Obscenamente ultrajante". 
     Nos dois casos, o governo Obama no est cometendo nenhuma ilegalidade. Os dois "programas de vigilncia", como so chamados no jargo oficial, so secretos, mas tm ordem judicial, ou base legal, e so supervisionados pelas comisses do Congresso. O problema est na dimenso, na grandeza, na magnitude das operaes que bisbilhotam a vida de milhes de americanos e estrangeiros  e no apenas de suspeitos. Os cidados comuns no faziam ideia de que as leis criadas para permitir que o governo americano vigiasse suspeitos de terrorismo estivessem sendo usadas de modo to escandalosamente abusivo. No caso da Verizon, a Agncia de Segurana Nacional (NSA, na sigla em ingls), recebe, todos os dias, os registros telefnicos de todas as chamadas feitas por todos os clientes, sem distino entre suspeitos e no suspeitos. Isso no  quebra de sigilo telefnico.  arrasto. Nas palavras de Kirsty Hughes, executiva de um grupo com base em Londres que monitora violaes da liberdade de expresso: "Nada justifica a vigilncia em massa". 
     O caso da Verizon veio a pblico na quarta-feira, quando o jornal ingls The Guardian revelou a existncia de uma ordem judicial confidencial que autoriza a NSA a receber os dados da Verizon no perodo de 25 de abril a 19 de julho. No rastro da repercusso da notcia, logo se esclareceu que a ordem judicial vem sendo secretamente expedida a cada trs meses, desde 2006. Seu fundamento legal  o Patriot Act (Lei Patritica), que, aprovado logo depois dos atentados de 2001, ampliou os poderes do governo para vigiar suspeitos. No Congresso, membros da Comisso de Inteligncia admitiram que estavam informados sobre a operao. A senadora Dianne Feinstein, democrata da Califrnia, talvez no af de socorrer o governo, ganhou o Oscar da explicao mais estpida da semana. Justificou o arrasto dizendo que o FBI precisa das informaes para o caso de algum cliente da Verizon virar terrorista... um dia. Criou uma inovadora categoria de investigao de crimes futuros. 
     Na sexta-feira, numa entrevista concedida na Califrnia, Obama por fim falou publicamente sobre a sucesso de escndalos. Defendeu com vigor os dois programas  da Verizon e da internet  e tentou desfazer a impresso de que seu governo se tornou os ouvidos e os olhos do Grande Irmo. Enfatizou que "ningum est escutando" conversas telefnicas alheias e, sem dar exemplos concretos, disse que os programas ajudaram a evitar ataques terroristas. Repetiu insistentemente que os dois programas so conhecidos e aprovados pelos parlamentares dos dois partidos e pelos juzes federais das cortes envolvidas em casos dessa natureza. Chegou a dizer que, na sua opinio, o governo encontrou o equilbrio certo entre a necessidade de combater o terrorismo e a necessidade de proteger a privacidade: "No se pode ter 100% de segurana e tambm 100% de privacidade e zero de incmodo. Como sociedade, temos de fazer certas escolhas". 
     Quanta diferena entre o candidato e o presidente! Em 2007, quando estava em campanha para a Casa Branca  e o duto de informaes entre a Verizon e a NSA j funcionava a todo o vapor , Obama dizia que as polticas de vigilncia de Bush propunham "uma falsa escolha entre as liberdades que prezamos e a segurana que prestamos". Aparentemente, agora que o governo  seu, a escolha deixou de ser falsa. O Congresso, de fato, com o voto de republicanos e democratas, apoia os dois programas. A questo no  de natureza partidria, mas de natureza poltica  o cidado americano no sabe que as autoridades estavam, e ainda esto, vasculhando e xeretando sua vida de modo to abrangente. Obviamente, os clientes da Verizon no so os nicos submetidos a monitoramento dirio, a menos que fossem mais propensos ao terrorismo do que os clientes da AT&T, por exemplo. 
     Com base no apoio do Congresso, Obama tentou afastar de si a responsabilidade. Disse que os parlamentares, que aprovam essas estratgias de vigilncia em sesses secretas, deveriam, agora, na hora da crise, vir a pblico e assegurar  sociedade americana que no h abusos. O problema  que h abusos, e j houve parlamentar tentando chamar ateno para isso. Pelo menos desde 2009, dois democratas  os senadores Ron Wyden, do Oregon, e Mark Udall, do Colorado  tm sistematicamente denunciado que o governo Obama vinha fazendo uma interpretao abusiva da Lei Patritica. No ano passado, em carta ao secretrio de Justia e procurador-geral Eric Holder, os dois disseram que "a maioria dos americanos ficaria estarrecida se soubesse dos detalhes" desses programas. O republicano Jim Sensenbrenner, do Wisconsin, um dos autores da Lei Patritica, escreveu carta ao mesmo Eric Holder questionando se "os direitos constitucionais esto sendo respeitados". Sensenbrenner acha que o governo faz uso abusivo da lei: "Monitorar chamadas telefnicas de milhes de pessoas inocentes  uma medida excessiva e antiamericana". Uma fonte annima da Casa Branca, citada pela imprensa americana, tentou amenizar o escndalo dizendo que a NSA, apesar de receber trilhes de dados, no  informada sobre a identidade de quem faz a ligao nem de quem a recebe. Ningum deu a mnima. S mesmo uma plateia de idiotas acreditaria que a NSA e o FBI teriam dificuldade para descobrir a identidade das pessoas em cada ponta dos telefonemas. 
     Na quinta-feira, menos de 24 horas depois da revelao do arrasto na Verizon, o governo Obama afundou mais um metro na lama da sua bisbilhoteria. O jornal Washington Post e o mesmo ingls The Guardian noticiaram que o governo vinha chafurdando em informaes nos servidores das maiores empresas de internet. Os jornais tiveram acesso a um Power Point, composto de 41 slides, no qual o programa de espionagem  detalhado. Chama-se Prism. Tambm  controlado pela NSA. Os slides mostram que a primeira empresa a participar do esquema foi a Microsoft, em setembro de 2007. A ltima, recrutada em outubro de 2012, foi a Apple. De novo, o governo confirmou a existncia do Prism, que est em vigor h seis anos, e disse que as informaes foram usadas para "proteger o pas de um amplo leque de ameaas". Mas ressalvou que, pela lei, as informaes capturadas referem-se apenas a estrangeiros no exterior, e no a americanos, nem a estrangeiros nos Estados Unidos. Como o governo faz para separar uma coisa da outra, dentro de uma nica e catica base de dados,  outro mistrio. 
     As empresas  entre elas, Google, Facebook, Microsoft e Apple  negaram com veemncia conhecimento ou participao no Prism. O Google foi particularmente enftico: "De tempos em tempos, surge a alegao de que criamos uma porta dos fundos para o governo entrar em nossos sistemas, mas o Google no tem porta dos fundos". (Pode no ter porta dos fundos, mas tem caverna. Na campanha reeleitoral de Obama, Eric Schmidt, cabea do Google, ajudou a formar o time de tecnologia do candidato. A turma se reunia num canto escuro do comit conhecido como "caverna". Terminada a eleio, Schmidt investiu milhes de dlares para manter o grupo unido numa empresa de consultoria, a Civis Analytics.) 
     Na aparncia, o Prism, ao contrrio do arrasto da Verizon, inclui a captura do contedo das conversas dos fiscalizados. O envolvimento dos trs poderes nos dois casos no deixou de escandalizar entidades de defesa de liberdades civis. Anthony Romero, da American Civil Liberties Union, criticou cada um: "O Congresso, por legislar a favor de tais poderes; a Justia, por ser um tigre de papel que s carimba o que lhe pedem; e o governo Obama, por no ser fiel aos seus prprios valores". 
     Na entrevista de sexta-feira, Obama fez questo de frisar que a xeretagem na internet no inclui os cidados americanos. Ento ateno: brasileiros e demais cidados do mundo, a Casa Branca est de olho em vocs  nos seus e-mails, fotos, vdeos, conversas on-line, com o beneplcito das grandes empresas do setor (cujo desmentido perdeu toda a eficcia com a confirmao do programa por parte de Obama. A menos que acreditemos que os gigantes da internet no conseguiram detectar que algum vasculha seus servidores desde 2007...). 
     O caso envolvendo as empresas de internet veio a pblico no momento em  que Obama viajava para o sul da Califrnia, onde se encontraria com o presidente da China, Xi Jinping  reunio que vinha sendo completamente ofuscada pelos escndalos. Um dos assuntos na agenda dos Estados Unidos inclua apresentar reclamaes contra a ciberespionagem patrocinada por Pequim em alvos americanos. A notcia de que o governo americano bisbilhota os telefonemas de seus prprios cidados e usa as maiores empresas de internet para fiscalizar estrangeiros  chineses entre eles, presume-se  , no mnimo, um embarao para Obama. Um embarao ainda pior surgiu na sexta-feira, quando o The Guardian, que aparentemente encontrou uma fonte de ouro nos bastidores da espionagem do governo, trouxe outra revelao. Em outubro do ano passado, Obama, numa mensagem secreta de dezoito pginas, pediu que sua equipe de segurana e inteligncia elaborasse uma lista com alvos preferenciais no exterior para ataques cibernticos americanos. Ou seja:  Obama faz em segredo o que reclama em pblico contra os chineses. 
     O arrasto da espionagem chegou numa hora particularmente complicada para Obama. O Congresso est investigando as suspeitas de que a Receita Federal americana, o IRS, discriminou entidades de direita que pediam iseno de imposto. A investigao pretende saber se a ordem para perseguir as organizaes conservadoras partiu da Casa Branca. No se tem nada de concreto sobre isso at agora, mas j apareceu a informao de que o ex-secretrio da Receita Douglas Shulman visitou a Casa Branca pelo menos dez vezes na sua gesto. (Para comparar: o antecessor, Mark Everson, esteve na Casa Branca uma nica vez nos quatro anos de servio no governo de Bush filho.) Outro caso polmico, que tambm gerou desconfianas de que o governo vem abusando de suas prerrogativas para investigar cidados, envolve a agncia de notcias Associated Press. O governo monitorou vinte linhas telefnicas usadas por mais de 100 reprteres e editores para descobrir a identidade do servidor que vazara uma informao sensvel. O governo pode fazer isso, mas vinte linhas telefnicas parece um excesso. 
     Para completar a suspeita de que Obama faz um governo secretivo e bisbilhoteiro, a mesma AP noticiou na semana passada que alguns auxiliares de Obama usam contas de e-mail secretas no lugar da conta oficial. Entre eles est a secretria de Sade e Servios Sociais, Kathleen Sebelius. Seu e-mail oficial  katlileen.sebelius@hhs.gov, mas o secreto, divulgado pela AP,  kgs2@hhs.gov. Os funcionrios do governo tm a responsabilidade legal de usar contas de e-mail oficiais de modo que, no caso de uma investigao do Congresso ou um processo judicial, seja possvel localizar as informaes necessrias. Os auxiliares de Obama dizem que os e-mails secretos so utilizados apenas para evitar que suas caixas fiquem abarrotadas com mensagens desimportantes, mas o caso ajuda a compor a imagem de um governo que gosta de espionar os outros e se empenha em apagar seu prprio rastro.  Quando a AP, com base na lei de liberdade de informao, pediu ao governo a lista de e-mails, o Departamento do Trabalho, alegando muito trabalho e alto custo, chegou a cobrar 1 milho de dlares para fornecer o material. O secretrio interino, Seth Harris, tem trs contas de e-mail. 
     Tudo somado, o governo est afundando na pior crise poltica desde que Obama chegou  Casa Branca. Em 2006, quando o jornal USA Today divulgou que o governo Bush estava bisbilhotando as ligaes dos americanos feitas via AT&T, Verizon e BellSouth, houve um tsunami de protestos indignados. Agora, a nica diferena  que Obama prometia um governo de transparncia que jamais repetiria as polticas invasivas do antecessor. No entanto, ampliou-as de tal modo que j ameaa o equilbrio das relaes entre o estado americano e os cidados  um rascunho de estado policial. A crise  tal que at o New York Times, um defensor infalvel do obamismo, escreveu um editorial em tom excepcionalmente duro na semana passada: "Obama est comprovando o trusmo segundo o qual o Executivo usar qualquer poder que lhe for concedido e, provavelmente, dele abusar". E arrematou: "O governo perdeu toda a credibilidade". (Mais tarde, fiel ao obamismo, o editorial foi alterado para aliviar a barra de Obama, acrescentando "...perdeu toda a credibilidade neste assunto".) Havia inmeras suspeitas de que Obama vinha repetindo a poltica de Bush, mas  a primeira vez que documentos secretos provam que a prtica de vigiar telefonemas em escala massiva segue em vigor. Nunca  demais lembrar o aviso da londrina Kirsty Hughes: nada justifica vigilncia em massa.


2. A FILIAL DO TERROR
Como o Ir montou no Brasil uma rede de extremistas que auxiliaram na organizao do atentado terrorista  Amia. em Buenos Aires, em 1994.
DUDA TEIXEIRA E LEONARDO COUTINHO

     Ali Khamenei, o lder supremo do Ir, deu, em uma reunio em agosto de 1993, a ordem para que se executasse o atentado mais sangrento da histria argentina. Menos de um ano depois, no dia 18 de julho de 1994, isso se tornou realidade com a exploso de uma van Renault Trafic em frente a um prdio onde funcionava a Associao Mutual Israelita Argentina (Amia). No meio dos escombros, 85 mortos. O carro continha entre 300 e 400 quilos de um composto de nitrato de amnio, alumnio, dinamite e nitroglicerina. Desde ento, por quase duas dcadas, a cadeia de comando montada a partir do Ir para executar a carnificina em Buenos Aires foi cuidadosamente estudada pelo procurador especial Alberto Nisman. Seu relatrio, que acusa a cpula do governo iraniano de ter sido mandante do crime, foi apresentado  Justia no fim de maio. Na semana passada, VEJA teve acesso  sua ntegra. Em 502 pginas,  possvel entender no apenas como funcionava a rede terrorista, mas tambm suas ramificaes no Brasil. Doze extremistas citados por Nisman como tendo vnculos com o Hezbollah, o grupo islmico que  um brao armado do governo iraniano no Lbano, viveram, visitaram parentes ou mantiveram negcios em trs cidades brasileiras: Foz do Iguau, So Paulo e Curitiba. Pelo menos quatro deles tiveram participao direta ou indireta no atentado  Amia. 
     O libans Samuel Salman El Reda, que vivia em Foz do Iguau, foi quem, segundo Nisman, transmitiu os comandos para o atentado em seus instantes finais, por meio de dezenas de ligaes telefnicas de sua casa, em Foz, e de um aparelho celular comprado em nome de um membro do Hezbollah, Andr Marques, para se comunicar com os que prepararam e posicionaram a van com explosivos. s vsperas do crime, El Reda foi pessoalmente a Buenos Aires. Pegou um avio de volta duas horas antes de o veculo explodir, j no aeroporto Jorge Newberry, o Aeroparque, assim que recebeu a confirmao de que tudo seguia como planejado. No Brasil, El Reda se aproveitou de uma estrutura montada pelo governo iraniano e pelo Hezbollah desde 1984. Logo aps o incio da Revoluo Iraniana de 1979, que culminou com um estado teocrtico, os aiatols j estavam suficientemente confiantes para exportar a revoluo. Homens bem treinados foram ento enviados para o Brasil, a Guiana e a Argentina, com a misso de preparar o terreno para aes futuras. Em 1992, houve um ataque  Embaixada de Israel em Buenos Aires, com 29 mortos. Tanto esse como o atentado de 1994 foram uma represlia ao fim do contrato de transferncia de tecnologia nuclear da Argentina para o Ir. 
     O escolhido para comandar a operao na Amrica Latina foi Mohsen Rabbani, que pregava na mesquita Tauhcl, na periferia da capital portenha. "Todos somos Hezbollah", dizia ele aos alunos. Outras pregaes comuns eram o dio aos judeus e aos americanos. Em Buenos Aires, ele desembarcou com o cargo de inspetor do abate de gado, que para muulmanos praticantes deve ocorrer segundo preceitos religiosos. Quatro meses antes da exploso, foi  nomeado conselheiro cultural da Embaixada do Ir. O cargo serviria apenas para despistar investigaes futuras. Segundo Nisman, as atividades dos terroristas sempre foram camufladas com centros culturais, editoras de livros e mesquitas. 
     Outro personagem que aparece no relatrio  o xeque Taleb Khazraji, que dirige o Centro Islmico no Brasil, em So Paulo. A entidade possui uma editora religiosa e uma unidade que inspeciona o abate de animais. Soa familiar, no? A denncia no aponta participao direta de Khazraji no atentado, mas cita ligaes telefnicas de sua mesquita para um guianense que tentou explodir o aeroporto de Nova York, em 2007, e outras conexes com figuras centrais da rede terrorista iraniana, entre elas Rabbani. O xiita Khazraji, afirma o documento,  funcionrio do governo do Ir. "O Hezbollah no vai abandonar as armas", disse ele, aps voltar de uma viagem a Teer em que se encontrou com o aiatol Khamenei. "Ainda no descartamos a possibilidade de ele ter tido alguma relao com o atentado", diz Nisman. Khazraji foi procurado por VEJA na quarta-feira, dia 5, mas seu filho e secretrio, Nasser, disse que o pai estava no Ir. No dia seguinte, mudou a verso e disse que ele est no Iraque, "onde os telefones funcionam muito mal". Anotado.

A MATRIZ
IR
Aiatol Ali Khamenei - O lder supremo iraniano tomou a deciso de atacar a Argentina no dia 14 de agosto de 1993, em uma reunio na cidade de Mashad.
Ali Akbar Rafsanjani - O ento presidente do pas participou da reunio em que se decidiu sobre o atentado.

A FILIAL 1
GUIANA
Abdul Kadir - O espio iraniano, engenheiro especialista em dinamites, articulou com Mohsen Rabbani um atentado frustrado ao aeroporto JFK, em Nova York, em 2007.
ARGENTINA
Mohsen Rabbani - O conselheiro cultural da Embaixada do Ir em Buenos Aires tambm participou da reunio em Mashad. Foi ele quem providenciou a van Renault Trafic usada no atentado.

A FILIAL 2
SO PAULO
Xeque Taleb Khazraji - O iraquiano xiita naturalizado brasileiro recrutava radicais para estudar no Ir e recebeu um filho de Abdul Kadir em sua mesquita no bairro do Brs.
CURITIBA
Ghazi Iskandar - Representante do Hezbollah em Curitiba, visitou Rabbani em Buenos Aires no dia 2 de agosto de 1994, poucos dias aps o atentado.
FOZ DO IGUAU
Mohamed Taghi Tabatabaei Einaki - Um dos pioneiros do Hezbollah no Brasil, recrutava xiitas libaneses da cidade fronteiria para a rede extremista mantida pelo Ir na Amrica Latina.
Farouk Omairi - Organizava o envio de dinheiro para a mesquita de Rabbani em Buenos Aires e para o Hezbollah. Foi condenado a onze anos de cadeia no Brasil por trfico de cocana.
Samuel Salman El Reda - O libans, membro do Hezbollah, coordenou a fase final do atentado por telefone.


3. O DESPERTAR TURCO
O pas que tem um p na Europa e o outro no Oriente Mdio era visto como um modelo de democracia com governo islmico. A classe mdia que tomou as ruas contra o autoritarismo do premi Recep Erdogan provou que isso no passa de uma fantasia.
NATHALIA WATKINS, DE ISTAMBUL

     Na Praa Taksim e arredores, no centro de Istambul, os manifestantes circulavam na semana passada orgulhosos com adesivos colados ao peito, faixas no pescoo ou cartazes com os dizeres "Cuidado! apulcu!". A palavra pode significar criminoso, marginal ou vagabundo em turco (pronuncia-se tchapul-dju em portugus), e foi usada pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan para caracterizar os cidados que ocupam a praa desde 28 maio. Nesse dia, um pequeno grupo de moradores tentou impedir que as rvores do Parque Gezi, adjacente  Taksim, fossem derrubadas para dar lugar a um shopping e a uma rplica de um quartel-general do Imprio Otomano. Ao adotarem, com ironia, o insulto do premi para designar a si prprios, os manifestantes tentam evidenciar o absurdo contido nas ideias de Erdogan e denunciar sua escalada autoritria. Em dez anos no poder, o primeiro-ministro, pertencente ao islamista Partido da Justia e do Desenvolvimento (AKP), perseguiu jornalistas (a Turquia  o pas com o maior nmero deles na cadeia, mais at do que a China e o Ir) e prendeu militares acusando-os de conspirao. Mais recentemente, comeou a se sentir  vontade tambm para ditar os costumes da populao. Deu o aval para que radicais islmicos agridam namorados que se beijam em pblico e restringiu o consumo de lcool. Falou at em mudar a Constituio para se perpetuar no governo como presidente e com mais poderes. Ao tentar reformar a principal praa da cidade, tradicional ponto de manifestaes populares em Istambul Erdogan foi confrontado com o fato de que, numa democracia, ter o voto da maioria no representa uma procurao para tirar a liberdade da minoria. E, assim, dia aps dia, os turcos que prezam o secularismo de sua sociedade lotaram as ruas de mais de sessenta cidades. 
     A represso excessiva das manifestaes resultou em trs mortes e 4000 feridos. Os jovens conseguiram isolar a praa em Istambul com barricadas, e os policiais, munidos de bombas e de sprays com gs lacrimogneo, posicionaram- se no limite entre essa regio e um dos escritrios do premi (o outro fica em Ancara, a capital). A partir da tera-feira 4, a situao se acalmou e a praa tornou-se uma espcie de Woodstock do Bsforo, com inmeras barracas de camping, apresentaes artsticas espontneas e rodinhas de bate-papo. H os comunistas, os ambientalistas, os gays. H estudantes universitrios, operadores do mercado financeiro e professores do ensino primrio. Ambulantes vendem mscaras de mergulho e mscaras cirrgicas para proteger os olhos do gs lacrimogneo. Montaram-se algumas bibliotecas improvisadas com os mesmos tijolos usados para arremessar contra a polcia. Para passar o tempo, aulas de ioga, batucada, dana de roda e cinema ao ar livre. Para desqualificar os manifestantes, Erdogan disse que eram todos do partido opositor. No so. Uma pesquisa do jornal turco Hurriyet mostrou que apenas 15% dos apulcu se sentem identificados com alguma legenda poltica. A vasta maioria, 92%, est ali por rejeitar o autoritarismo do premi. Muitos pedem sua demisso, o que no ocorrer enquanto o AKP tiver a maioria no Parlamento. 
     A popularidade de Erdogan, que terminou por enfraquecer os partidos de oposio nos ltimos anos,  um sintoma do sucesso econmico do pas, do qual ele no  o autor. Em 2001, um governo de coalizo realizou diversas reformas com a ajuda do FMI. A inflao foi controlada, o que atraiu investimentos, e os governantes foram obrigados a gastar com responsabilidade. Erdogan manteve as regras e aproveitou a onda. "O AKP tambm foi bem-sucedido em estender o escopo dos programas sociais", diz o economista Sinan Ulgen, professor do Carnegie Europe, em Bruxelas. A populao que melhorou de vida  hoje a que est acampada nas praas. "O AKP  vtima do prprio sucesso", diz o historiador turco Soner Cagaptay, do Washington Institute. "A classe mdia, que  hoje a maioria, valoriza os direitos individuais e respeita a democracia." 
     O movimento dos apulcu , acima de tudo, uma batalha de smbolos. Com os novos projetos urbansticos, Erdogan pretende apagar as marcas do fundador da Turquia moderna e laica, Mustafa Kemal Atatrk. Bandeiras do pas com a foto dele e faixas com os dizeres "soldado de Atatrk" esto entre as imagens mais recorrentes na praa. Atatrk,  bom que se diga, no foi um democrata. Ele massacrou milhares de curdos, minoria tnica que representa 18% da populao, entre 1925 e 1937, e enforcou vrios comunistas. Mas, para o povo reunido na Praa Taksim, no se trata de ressuscitar os tempos de Atatrk, mas de defender o estilo de vida moderno construdo na esteira do seu legado poltico. Na praa, h um centro cultural abandonado que leva o nome de Atatrk. Pelos planos de Erdogan, ele seria demolido. Por ali, o premi quer erguer uma mesquita. "Se hoje somos livres,  graas a Atatrk. S Erdogan no reconhece isso", diz a estudante de administrao Alim Ozcelik, de 20 anos, que completa: "Erdogan acha que pode proibir tudo. Ele quer decidir sobre o aborto e sobre o que bebemos. O que vir depois? Ele vai impedir as mulheres de dirigir? No queremos nos tornar outro Ir". 
     Quem acompanha a carreira de Erdogan desde os anos 90, quando era prefeito de Istambul, sabe que ele nunca foi grande defensor da democracia ou da separao entre religio e estado. No Ramad, ele mandava recolher das salas da prefeitura as chaleiras eltricas usadas para preparar ch. Pretendia garantir que nenhum funcionrio, independentemente de seu credo, burlasse as regras do jejum muulmano. Como primeiro-ministro, tentou emplacar uma lei que transformaria adultrio em crime. A tentativa no foi adiante por presso da Unio Europeia. Aps as eleies de 2011, vencidas com 49% dos votos, Erdogan retomou sua vontade de meter-se na vida alheia. Em 25 de maio, trs dias antes da ocupao da Taksim, 200 pessoas participaram de um beijao coletivo numa estao de metro da capital, Ancara, depois que um alerta soou no local pedindo aos passageiros que "se comportem dentro dos cdigos morais". H duas semanas, o Parlamento turco aprovou uma legislao que restringe a venda e o consumo de bebidas alcolicas entre 22 e 6 horas. A proibio j valia para lojas localizadas a 100 metros de distncia de mesquitas e escolas. O governo diz querer proteger o pas do alcoolismo. 
     As restries so rejeitadas at por turcos conservadores, mas que reconhecem o valor de respeitar as liberdades individuais. No bairro Cihangir, entre estreitas ladeiras de paraleleppedos e cafs lotados de jovens, uma mesquita funciona em cima de um restaurante. O im do templo, que pediu anonimato  reitera que o consumo de lcool  proibido no Coro, mas diz que a bebida no afasta os fiis da religio. "O prprio profeta Maom bebia, pois isso era comum naquele tempo", diz o im. O alfaiate Ayhan Terzi, frequentador assduo da mesquita, votou em Erdogan nas trs ltimas eleies e no se arrepende. Ele confessa, porm, que adora tomar uma cerveja enquanto assiste aos jogos de seu time de futebol, o Galatasaray. "No vejo nenhum problema em beber com moderao, para relaxar. Isso no deve ser da conta do governo", diz Terzi. Na Turquia, 99% da populao  muulmana, mas menos de 2% acreditam que a sharia, a lei islmica, deve guiar suas vidas. No  assim, contudo, que o islamista Erdogan pensa. Os manifestantes querem salvar os oitenta anos de secularismo e manter a frmula criada por Atatrk, que estabeleceu a "exceo turca", o nico pas da regio a conciliar uma populao de maioria islmica com democracia, ainda que imperfeita. Os apulcu provaram que isso no  possvel quando um partido islmico est no poder.


